Publicado em DIÁRIO DE BORDO

A Vida do viajante

Viajar pra mim é algo tão natural, tão familiar e não seria diferente para uma pessoa que nasce em São Paulo, de mãe mineira e pai piauiense. Eu praticamente nasci viajando, e como diz minha mãe somos ciganos, andarilhos que topam qualquer aventura. Sendo que muitas vezes não importa muito o destino final, mas a estrada, os caminhos a percorrer, as pessoas a conhecer em cada nova estação,  rodoviária ou aeroporto.

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São os abrigos improvisados, nas estradas do maranhão, os buracos nas estradas paraenses, as curvas nos precipícios das estradas mineiras, a paisagem árida da Paraíba, os bodes no Piauí e as peculiaridades de tantas outras estradas do Brasil, que apesar de alguns problemas mais sérios, são elas que, quando permitimos nos ajudam a crescer e a perceber a vida de outra maneira.

A meu ver, as viagens terrestres incentivam o contato com as pessoas, são nelas que fazemos grandes amigos que dificilmente veremos novamente, onde escutamos suas histórias ou quando nos descobrimos criança ao brincar de carrinho com o vizinho de poltrona. É nessas andanças que aprendemos a suportar odores terríveis, pessoas que desconhecem fones de ouvido, crianças que choram a noite toda (e eu já fui uma dessas), são os motoristas gritando nas paradas que já estão saindo, ou é tomar banho por 1,00 sem lugar pra por as coisas e ao voltar para o ônibus ter várias toalhas estendidas, é também o ar condicionado que quebra e a gente se imagina na proa do Titanic com o vento forte que entra pela parte de cima do ônibus assanhando nossos cabelos.

E quando se está de carro próprio, a aventura é maior ainda, você fura o pneu no meio do nada, dando pra lugar nenhum, ou nos buracos que se escondem em enormes poças d’água. Além dos atalhos por caminhos estranhos, ou ter que voltar vários km por ter passado do desvio, junto com a odisseia de se achar um lugar decente pra passar a noite na beira das estradas.

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Na viagem de trem, que mesmo com tantas viagens entre o Pará e o Maranhão será sempre novidade pra mim. Na minha opinião, é a melhor forma de viajar e que no Brasil, poucos conhecem e usufruem, pois não há o mínimo de incentivo à elas. O ritmo constante dos trilhos são como canções de ninar, ótimo para passar a viagem toda dormindo já que são poucas as paradas e bem menos instável que no ônibus. É ótimo cumprimentar as pessoas que veem o trem passar, e  admirar a paisagem das janelas entre os vagões, além dos passeios até a lanchonete do trem mesmo que seja só pra ir até lá. É também ser acordado e mesmo tonto pelo sono ter que dar conta da passagem ou escolher o almoço ou a janta. Temos que nos indignar com a forma como é tratada a classe econômica, que sem cadeira marcada, vira a verdadeira batalha dos 300 de Esparta com o povo jogando as malas pela janela e alguns viajando em pé. (Não sei se ainda continua assim).

Já viajar de avião é ótimo, rápido, mais seguro. Só que acho muito solitário quando viajamos sozinhos, são muitas conexões que trocam de aeronave e todas as pessoas mudam, é muita pressa, é muito rápido. Ninguém fala com você, é cada um com seu notebook, celular, livro ou revista, no desconforto das cadeiras do avião ou dos aeroportos. A paisagem não muda, nem os estilos dos aeroportos, que sempre se parecem e na maioria das vezes ignora a identidade local. E a gente sempre tem medo que a mala vá parar lá na china, ou que despareça em alguma esteira por aí, medo de passar pelo detector de metais e ter alguma coisa confiscada. E é intimidador olhar pela janela do avião e perceber que estamos distantes do chão e ver as pessoas como formigas em seus carrinhos, além de se sentir olhando para um mapa com a sensação de chegar perto da tampa do céu.

E daqui a pouco partiremos para mais uma aventura, com novos caminhos a serem percorridos. E é na sensação de infinito da estrada, na Paz de um céu azul a milhas e milhas do chão ou no ritmo constante de uma estrada de ferro que se chega ao destino final totalmente diferente de quem partiu.

Minha trilha sonora com músicas de viagem:

 

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