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Azul é a cor mais quente!

Quando resolvi pintar meu cabelo de cores exóticas comecei com o rosa, por questão de disponibilidade e impulso, passei numa loja vi a tinta e comentei com a minha mãe que iria pintar daquela cor e ela respondeu: “Por mim, o cabelo é teu”, pronto, dois dias depois deixei minha irmã descolorir e pintá-lo, nunca tive apego pelo cabelo, sempre pensei se nada der certo, raspo e ele cresce de novo e nisso já foi roxo, magenta, azul escuro, lilás, azul claro. Antes disso, sempre fui muito “certinha” e sufocada de tabus, e isso nunca foi uma proibição da família, sempre foi eu mesma com uma postura rígida, inflexível, que não me permitia viver diferentes experiências sem julgá-las de forma fechada e preconceituosa sempre fugia de tudo, principalmente da vida. Eu não queria crescer.

Tinha medo de acharem que eu era alguém que eu não era, mas depois de várias cantadas de meninas nos últimos tempos por causa da cor azul que carrego em meus cabelos no momento, entendi que estamos imersos num mundo de signos e símbolos carregados de preconceito e julgamentos pela aparência. Se antes eu tinha medo de que pensassem que eu fosse algo que eu não era, já me sinto segura para saber como “estou” no momento e o que eu sou por essência. Não precisamos ficar presos em querer corresponder a imagem que acreditam que somos sem viver plenamente o que realmente desejamos.E para ter o cabelo azul, basta ter cabelo e pintar de azul e isso não precisa significar nada.

Quando fui cortar o cabelo curtinho pela primeira vez, saí para o salão com ele solto como nunca fazia, ele estava na altura dos meus seios, rebelde, esvoaçante e volumoso, saí decidida com uma foto no celular. Por dentro já era outra pessoa que transbordava e precisava estampar o lado externo também. Cortei! Era como se a imagem refletida era a interna, primeira mudança e primeiro gostinho de liberdade. Depois pintar colorido foi fácil, já tinha enjoado dele curto, mas não gosto dele grande, não tinha mais óculos para me esconder então a solução foi pintar.

Apesar de muitos elogios e incentivo pela coragem de cortar ou pintar (?) sempre tinham aquelas pessoas que decretavam que homem nenhum iria me querer (?), que achariam que eu era lésbica (?) e que eu não seria feliz (?).  E até hoje, sinceramente não consigo entender essa lógica de que um corte de cabelo, defina a sua sexualidade, o seu amor e a sua felicidade. O gostar de vestir algo, de cortar o cabelo de certa forma é tão relativo e subjetivo, mas não mudam a nossa natureza.

Eu não preciso parecer com algo que se encaixa no querer de alguém, preciso e tenho a necessidade de estar correspondente com o meu querer, com o meu gostar, demorei muito para ter esse tipo de conforto com minha própria escolha, com a minha aparência e com meu amor próprio, sofri muito para conseguir chegar nesse ponto que estou agora.

O azul só se tornou a cor mais quente depois de um filme francês, antes era só mais uma cor do espectro de luz. Por isso essas construções e convenções sociais do que devemos ser, parecer, e estar, não pode nos afetar tão profundamente por serem fluidas, preconceituosas, subjetivas e tacanhas. No fim é só um corte de cabelo e uma tinta que desbota. O que eu questiono é como  nos contaminamos com os preconceitos pela forma que nos vestimos e vamos nos limitando por causa de esteriótipos. O meu significado ao pintar colorido é simplesmente pela cor, gosto de andar colorida, gosto das cores, gosto da mudança constante de todo dia ser uma cor diferente quando vai desbotando.

E o desbotar das cores do meu cabelo, são como lembretes que sussurram em meu ouvido: nada é eterno, nem as certezas, nem as visões, nem os “quereres”.  Não adianta cerrar os punhos e segurar forte achando que terá a eternidade das coisas, ainda há muitas cores no espectro de luz para si pintar.

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