Publicado em COISAS DO MUNDO

Este é o meu corpo… isto é o meu sangue…

Sangue de mais uma…30….estupro coletivo…Castelo….Bom jesus….Rio de Janeiro…a cada 11 minutos um estupro no Brasil…Até escrever dói… Pensar sobre isso me afeta, sinto como se fosse em mim a dor e dói, dói, dói uma dor profunda, não poderia ter sido eu, foi em mim também. Foi um duro golpe. Mais um nesses tempos estranhos. É também pela menina, que é dada como puta, que se sexualiza antes do tempo, que não tem tempo de escolher, não tem tempo, tempo, tempo que não volta, é por elas que quem pode tem a obrigação de fazer alguma coisa. Mais uma…mais outra…e outra que morre, que sofre, que apanha, mais uma sentenciada por nascer mulher. Somos estupradas, toda hora, todo dia, todo mísero segundo uma mulher é violada, abusada, estuprada e culpada por ser vítima, exposta, julgada, humilhada.

Mas o que fazer? Como fazer? Não estamos livres…Privilégio nenhum nos salva…conhecimento nenhum nos livra do sofrimento…do tormento de martelar que poderá ser a próxima da vez….próxima esquina…próxima rua…próxima semana.

Que sociedade estamos construindo com esse mar de intolerância e retrocesso? Que vida coletiva queremos? Quando vamos lutar? Quando for eu? Quando for você? Quantas mais tem que morrer? Quantas vidas se perderem para que façamos alguma coisa concreta!?

Este corpo….este sangue…., também são meus, também são teus e essa vida que se esvai em dor também é minha. E nessa sina lutar para sobreviver. Lutar para não morrer. Lutar e viver.

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O que é ser cego?

 

Míseros minutos, na escuridão eu estive, ali, sentada, de olhos vendados se sentindo atada. Espera…espera tudo, ouve tudo, tudo ao mesmo tempo. Desespera com o escuro, com o escudo que se impôs, ali sentada, de olhos fechados, na escuridão, no meio do caos. Presa… Coopera…sente. No sentido de sentir, de se deixar esvair por outros meios, sem rodeios, surgem novos cheiros, novos sons, distintas vozes, amistosos toques, deixa sentir.
Enxerguei de olhos fechados, me vi, não era mais escuridão, era somente outro tipo de luz, vi de outro jeito, outro efeito, senti o espaço, as pessoas, vi sem os olhos, de forma crua, nua, sem os enfeites da luz.
E nessa vida de caminhos erráticos, não somos todos cegos de algum jeito? A passear os olhos apressados, sem ver direito, presos na superfície brilhante das cores, sem realmente ver cada coisa? Como ter os passos seguros e sem medo frente a vida? Como tatear  nossa face nua se não vemos além do que as ilusões nos deixam? De certa forma, esse viver em ilusões não é um tipo de cegueira? Afinal o que é ser cego?
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Nalva, filha de Eurides, neta de Izaura.

Ou como eu a chamo: mãe…

Pensei em várias anedotas, várias lembranças para serem contadas, várias formas diferentes de escrever um texto, ou uma homenagem, um poema, um show particular no Hawaii com o Jack Johnson e até mandar um carro de som com mensagens melosas que a senhora a-d-o-r-a (#sóquenão).  De tudo o que pensei e lembrei a única palavra recorrente é: OBRIGADA!

Pela minha vida, pela minha educação, pelo seu apoio e renuncia. Por ser a mais gostosa, mais cheirosa, a “buniteza” mais “bunitoza” das Minas Gerais, por me ajudar a ver o mundo pelas cores que ele é, pelo mundo real, pelas opiniões sinceras. Ter a mãe já é um privilégio, ter uma mãe presente, divertida e livre é uma oportunidade para poucos.

A mulher que hoje eu sou nasceu do sonho de uma garota que saiu sozinha das brenhas de Minas e foi tentar a sorte nas brenhas do Piauí. A única mulher entre 5 homens  que foi embora para longe, que buscou estudar, ser livre, e ter o infinito de possibilidades.

No dia em que eu saí de casa minha mãe me disse. …

Para de chorar Raina!,

Sair aos 16 anos da barra da saia da mãe foi extremamente difícil para mim, eu era apegada demais, mas foi a hora certa, não me arrependo e agradeço a oportunidade de crescer. A distância me fez enxergar os seres humanos antes dos títulos de mãe e pai, as fraquezas, as forças, as angústias, a entender que ninguém é fortaleza, que ninguém é inquebrável e todos temos nossos momentos de crise. Ser mãe é uma construção para a vida, entre acertos e erros, uma responsabilidade com outros seres que as vezes vem de surpresa, sem planos, em que se faz escolhas entre os próprios sonhos e incentivar os sonhos dos filhos.

E mesmo com a distância quando eu mais precisei tive apoio, senti o afago, e o empenho em vir cuidar de mim, enquanto enfrentava um furação na cabeça, chorar comigo, aguentar minhas fases obsessivas, me incentivar a sair de casa e para as festas, ver gente, apoiar as idéias mais loucas que já tive.

Quero dizer a Nalva pessoa, o quanto eu a admiro, o quanto de realizações que tivemos, adoro nossas conversas, a cumplicidade que construímos, da família incrível que compartilhamos. A confiança e a independência que me foi ensinada e incentivada é a forma mais terna de demonstrar o amor. Das opiniões sinceras, aprendi a ouvir críticas, a saber que perfeição não existe e que ser mãe não é um mar de rosas e não é um nirvana. Nem um dom que nasce com a gente, mas uma construção diária de ser e se deixar ser, minimizando as culpas que o mundo impõe sobre as mulheres, quando se assume ser mãe.
Obrigada. Tenho orgulho de ser sua filha.

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E no abraço fez morada…

O dia se fez e a angústia já estava ali. Na inquietude, acuada e presa em coisas que não queria fazer, no desânimo de tudo, parecia que tudo o que gostava era falso não era para si, era só pra mostrar aos outros, para que a aceitassem, mas aquilo tudo era estranho, hostil, ela não estava ali, doía ver a imagem no espelho mas era o que queriam dela, e como dói se negar a existência.
Era mais uma manhã tumultuada, sufocante, com um nó na garganta e  sem dormir, ali inerte em um canto, gritando para ficar só, mas clamando silenciosamente por um abraço.

Silenciosas dores de amargos e solitarios caminhos internos.

Uma mão se estende. Dessa mão o braço que laça a solidão e sufoca num abraço a dor que mora no peito.
Tinha medo! não chegue muito perto, esse coração cheio de espinhos pode te machucar, não quer te ver sofrer pelos cacos que se tornou, não quer que a tempestade de sua vida te perturbe. Vá embora! Se proteja!
Ei, espera, fica!  Ternos braços que abraçam, levem essa dor para longe, não vai, aperta mais, não solta, não a deixe solta.
Deixa ela morar no teu abraço.