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De onde você é?

De onde você é? Essa pergunta sempre deu um nó na minha cabeça, nunca soube responder de onde  exatamente. Ainda não sinto completamente o local exato de onde eu sou. Me sinto nômade, de lugar nenhum, de todos os lugares.

Desde antes de nascer, na barriga da minha mãe, eu já estava mudando de cidade, grávida em Brasília ela foi para São Paulo onde nasci e 4 meses depois já estava num ônibus para Teresina, e com um ano de idade já estava em Guaraciaba do Norte no Ceará, e em poucos meses voltamos para Teresina e daqui só saímos 10 anos depois para Parauapebas. E depois de 4 anos incríveis, numa noite chuvosa eu partia de volta para Teresina, e hoje, 8 anos intensos de estudos, descobertas, angústias, aqui estou mais uma vez arrumando as malas para partir. A partida, o adeus, o até logo….minha vida toda foi e continua sendo  em estradas, destinos, escalas, rodoviárias e saudade. Muitas saudades das amizades, da família, dos lugares.

Sinto como descreve Suketu Mehta, em “Bombaim, cidade máxima”:

A vida de cada um é dominada por um acontecimento central, que influencia e distorce tudo que vem depois e, retrospectivamente, tudo que veio antes. […]Ainda não acabamos de crescer no lugar onde estávamos, e nunca nos sentimos completamente à vontade no lugar para onde fomos.

Quando saímos de Teresina em 2004, eu senti abandonar tudo que acreditava até então, foi dolorido e repentino, chegamos em Parauapebas num fim de tarde dourado por entre ipês, com cheiro de novidade, de esperança. E na minha cabeça só girava: Agora essa é minha casa?. Quando me perguntavam de onde eu era eu sempre respondia que era de Teresina, enchia o povo por contar minhas histórias infantis. Aos poucos Teresina foi ficando para trás, por entre as fumaças do cotidiano, foi sendo tomada pela selva, pelas idas ao “Pebas”, pela vida nova que tínhamos construído.

Aí quando já tinha laços fortes, quatro anos depois, no meio de uma madrugada chuvosa, assim como meus olhos cheios de lágrimas, parti mais uma vez, dessa vez sem a família.

Essa é a primeira vez em que eu escolho ir, meu primeiro passo para realizar meus próprios projetos, para ser mais solta, mais livre, mais firme para que um dia eu possa ficar, plantar minhas sementes aladas em solo fértil, aprender a diminuir essa sede de urgência em que eu vivo a minha vida, e numa varanda para o mar eu sorria das andanças por aí e dos amigos que cativei no coração.

“Minha vida é andar por esse país
Pra ver se um dia descanso feliz
Guardando as recordações
Das terras onde passei
Andando pelos sertões
E dos amigos que lá deixei”… (Vida de viajante – Gonzaguinha)

Agora que resolvi ir, todos dizem para ir e não voltar, fugir desse estado atrasado, mas se todos fugirem como que ele vai progredir, eu não posso dizer quem serei daqui a 2 anos, depois desse curso, ou o que vai acontecer no meio do caminho, mas eu sinto que devo voltar para o Piauí e dividir o que aprendi e ajudar aqui, são tantas misérias e falta de perspectivas, que quem tem o privilégio de estudar devia ter a obrigação de contribuir de volta.

Mesmo ainda tendo a sensação de não ser de lugar nenhum, quando perguntarem de onde eu vim vou responder orgulhosa que vim de Teresina no Piauí.

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No labirinto de Escher

Às vezes padecemos na nossa própria loucura, deixamos que ilusões doentias tomem conta da nossa razão. Percebemos nossa humanidade errando, reencontrando nossa fragilidade em dias confusos e pertubadores, quando a sanidade mostra sua face insana. E Mesmo quando a vergonha, nos humilha e a culpa nos corrói,  somos obrigados a continuar, a pagar o preço pelos nossos equívocos. Temos que mostrar nossa face nua, humana e cheia de contradições, não adianta se esconder, não adianta fugir, nossos fantasmas nos perseguem.

A nossa mente se contamina com seus próprios venenos, ela nos corrompe, nos trapaceia. Mostra verdades inexistentes, constroí castelos de ar e cria realidades alternativas. Somos conduzidos por ela a escuros labirintos solitários cheios de angustias, medo e dor. A dor de vencer seus próprios monstros, é a mais pesada, mais pertubadora e constante.

Parecemos estar presos numa obra de Escher, onde nada é o que parece ser, não há caminhos certos ou errados é só a ilusão que reina e o impossivel que se apresenta como uma possibilidade controversa, onde nossos sentidos são enganados e os nossos olhos cegos.

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Ela se fez. Por: Dálete Santos 

Raina: No início  tímida quis desistir e ficar com sua vergonha, mas resolveu que ia ser diferente. 

Se despiu de paradigmas antigos. 

Pintou os cabelos de azul.

Banhou.

Se vestiu de felicidade engarrafada.

Se despiu novamente, dessa vez da tristeza. Ela tinha resolvido que ia mesmo era ser feliz.

Então ela tirou o salto, andou alguns passos sentiu o azulejo frio da sala e sentiu seus pés descalços no chão, deu um passo para um lado e depois para o outro e percebeu a confiança que deu o chão, sólido, infinito. Então dançou. Como louca, como sã, como quem crê e como que desacredita, no final Ela se fez.

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Arquitetura serve de quê? Para quem?

Arquitetura: s.f. (lat architectura) 1. Arte de projetar e construir prédios, edifícios ou outras estruturas; arquitetônica. 2. Constituição do edifício. 3. Contextura de um todo. 4. Intenção, projeto.

Leia o texto com esse som do China, sobre o movimento Ocupe Esterlita.

 

Quando entramos no curso de Arquitetura nos vendem um mundo de sonhos, de que você é um tipo de Deus que não projeta ambientes, realiza sonhos, que seremos artistas inquestionáveis, com soluções mágicas. Mas que tipo de sonhos são esses? De onde surgem o sonho de ter um prédio com uma parede toda de vidro virada para o poente numa cidade que faz um calor infernal? De onde surgem legislações, que não servem para o coletivo e quem pode arruma um jeito de não seguir? De onde vem o sonho de morar isolado com um muro de 5 m ao redor da sua casa? Ou o sonho de morar em apartamentos em que a suite master tem 9 m²? Ou de onde vem o sonho de morar numa casa de conjuntos populares iguais sem a mínima infraestrutura urbana quase fora da cidade e sem transporte?  Para que serve a arquitetura? Para quem? Para ter um projeto no meio de um esquema de corrupção? De se receber dinheiro para indicar um mobiliário que o cliente não precisa? De usar um material que destrói a natureza? Usar a sustentabilidade como marketing e na prática usar os mesmos processos construtivos insustentáveis? Ou conseguir aprovar uma obra toda ilegal por causa de um “amigo” dentro do órgão? No fim, onde está o sonho para se realizar?

“Bem mais do planejar uma construção ou dividir espaços para sua melhor ocupação, a Arquitetura fascina, intriga e muitas vezes, revolta as pessoas envolvidas pelas paredes. Isso porque ela não é apenas uma habilidade prática para solucionar espaços habitáveis, mas encarna valores. A Arquitetura desenha a realidade urbana que acomoda os seres humanos no presente. É o pensamento transformado em pedra, mas também a criação do pensamento. Do seu, inclusive. É bom conhecê-la melhor
Carlos A.C. Lemos

A realidade é brutal, temos que seguir leis que não se preocupa com a cidade, projetos que só são feitos para a manutenção de privilégios, em que as pessoas são completamente ignoradas, em que não há espaço para ninguém, em que o que vale são valores excludentes, ambientes feitos para mostrar poder, prestigio e que de certa forma oprime quem os utiliza. A crítica em si não é a arquitetura, a sua arte ou a sua vocação construtiva, mas do papel que ela desempenha na sociedade em como as pessoas enxergam o fazer arquitetônico, pela ótica egoísta e de egos.

Desconsiderar o entorno, as árvores existentes, a topografia e a memória afetiva das pessoas,  os nossos sonhos foram esmagados pelo progresso, o lado artístico da arquitetura é subjugado e transformado em mercadoria, para estampar maquetes meramente ilustrativas.

O urbanismo, nem se fala, as pessoas praticamente nem se dão conta do quanto um bom planejamento urbano, minimizaria vários problemas, a cidade vai sendo montada a partir da especulação imobiliária, do carro, e vamos marchando assistindo atônitos a cidade nos ser tirada, nossa saúde sucumbir em cada grau a mais, em cada árvore cortada, em cada desabrigado deslocado de suas casas, em cada gota de esgoto no rio despejada.

Eu amo arquitetura, tudo o que eu gosto, tudo o que me encanta, a arquitetura está no meio de algum jeito, no teatro, no cinema, na fotografia, nos poemas, no ativismo social e ambiental. O mundo insiste para a gente se especializar, focar numa coisa só a vida toda, ser uma coisa só. Mas somos infinitos de possibilidades em todas as direções, o conhecimento é fluido e para todos, e eu particularmente nunca consigo gostar de uma coisa só a vida toda, ou ser uma coisa só.

Por agora vou fugir para as montanhas, ir para a roça, olhar nas minhas próprias profundezas, para depois construir a arquitetura que eu quero, e ajudar a construir o mundo que eu sonho ver e viver. É chegado o momento de fazer o mundo girar, de caminhar com as próprias pernas. De criar o mundo que eu acredito, de exercer a arquitetura dos meus sonhos, de ter a vida que eu quero.

 

 

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É assim mesmo…

Quando a vida continua seu fardo

Quando o extraordinário se torna comum

Quando falamos sem agir

Quando nos equilibramos em ônibus cheios sem reclamar

Quando vemos os outros sofrerem e não nos compadecemos

Porque é assim mesmo, com as coisas da vida,

Nos acostumamos com o que não devíamos

Deixamos de fazer o necessário,

Somos expulsos de nossas próprias vidas,

Vivendo uma vida que todo mundo vive.

É assim mesmo,  não quero mudar,

Dá muito trabalho.