Publicado em COISAS DO MUNDO

«mais crente na pólvora do que na lógica»

Anos atrás, meu bisavô por parte de mãe, foi homenageado com o seu nome numa rua, em Águas Formosas – MG. Um historiador estudou a sua genealogia por causa da homenagem.

João da Silva Guimarães, meu bisavô, descendia de Pascoal da Silva Guimarães, sargento mor de Vila Rica. Na época eu com minha ingenuidade achei interessante ter um parente nomeado pela corte portuguesa. Mas em 2014 assisti um documentário sobre a Revolta de Felipe dos Santos e sobre o morro da queimada, também conhecido como morro do Pascoal da Silva, “meu parente”, dono de mais de 300 escravos que trabalhavam nas suas lavras de ouro, sargento mor e precursor de Vila Rica, quando era mascate participou da Revolta dos Emboabas e com o poder do ouro nas mãos, fez parte da Revolta de Felipe dos Santos.(contam alguns historiadores que Pascoal foi o idealizador dos dois movimentos). Ele teve seus bens queimados no Morro da Queimada (por isso o nome) pelo Conde de Assumar, foi enviado para ser julgado em Portugal, mas o ouro é poderoso para livrar sentenças ele não sofreu muitas perdas e ainda moveu um processo contra o Conde de Assumar. Contam seus cronistas que se manteve em Vila Rica pois era «mais crente na pólvora do que na lógica». Então imagina – se que tenha matado muita gente.

“A imaginação histórica reconstituirá, por certo, […] o cenário onde se localizou um fato econômico, seguido de uma tragédia política. Mas esta será apenas ponto de partida para a imaginação literária, de pungente meditação sobre a poesia das ruínas. Descanse o leitor: nós não a faremos. Passei apenas alguns momentos por esses ermos frios, de uma tristeza severa. Aqui as ruínas dominam as formas compostas do que lá embaixo, no seu sinuoso, é a cidade. Galgam a escarpa, vão infatigavelmente à procura do céu, e adquirem uma espécie de monumentalidade negra, comburida, que nos oprime. Não têm a doçura um pouco vaporosa das ruínas românticas, de que o começo do século XIX impregnou a visão de velhos jardins, com suas colunas a beira-lago. São ásperas, cruéis, e se não vem seguramente daquele dia de julho de 1720, em que a soldadesca de Conde de Assumar ateou fogo no arraial de Ouro Podre, pois Diogo de Vasconcelos alude a um arraial ali construído posteriormente e que por sua vez se converteu nesses escombros, não são por isso menos acerbas.  Alguma coisa selvagem, própria da natureza, se incorporou aos pedaços de paredes, muros e corredores de pedra, remanescentes de técnicas primitivas de mineração, e que se estendem por um espaço não suspeitado a primeira vista. Sucessivas plataformas e dobras do morro ostentam restos de construções, aparentemente sem outro qualquer vestígio de presença humana. Em vão o olhar procura descobrir um desses humildes objetos que assinalam a vida de todos os dias, mediadores entre o homem e a natureza.”

Carlos Drummond de Andrade. Passeios na ilha. Rio de Janeiro, José Olympio, 1975.

Passei três dias lendo sobre Pascoal da Silva Guimarães , enchi o celular de teses e dissertações sobre a sua vida, e dada certa altura, lendo que seu filho, João da Silva Guimarães, homônimo de  meu bisavô, foi um bandeirante sertanista que percorreu o sertão baiano e mineiro e foi o maior “conquistador” de índios, recebeu honrarias por esse feito, veio na minha cabeça a imagem dos índios maxacalis dormindo no coreto da praça em Águas Formosas, eles vivem precariamente, muitos são alcoólatras e são mal vistos em todas as cidades do Vale do Jequitinhonha e do Vale do Mucuri.

“chegaram aqui 50 gentios bárbaros da conquista do mestre-de-campo João da Silva Guimarães e é prodígio de Deus ver a ânsia com que estes paganismo pede batismo entre eles vinha uma criança de três para quatro anos branquíssima feições miúdas cabelo louro e olhos azuis esta com mais de quatro pouco mais ou menos da mesma idade são de outra nação chamada Catajós [sic] […] dão a notícia de que há outra nação que não tem palmas de mãos e que por todo o corpo tem cabelos como na cabeça e o couro duríssimo, em termos que a maior parte as flechas lhe não fazem dano[…].” 3

APM. SC 61. Registro de cartas do governador ao Vice-rei, a Gomes Freire e a diversas autoridades, destas ao governador e instruções. 1737. p. 113-114. Documento deteriorado não constando o final da correspondência. in PEREIRA, 2007

Tentei me convencer que podia ser engano e eles não eram meus parentes, tentei pixar da minha genealogia aqueles bandeirantes, matadores de indios e cheio de escravos, mas ele se estabeleceu na mesma região do meu bisavô em Araçuaí no vale do Jequitinhonha, então não é mera coincidência ter o mesmo nome. A minha curiosidade foi maior, quis ter certeza se eles realmente poderiam ser meus parentes, não dá para saber com certeza, é claro que preciso de mais pesquisa para saber o que realmente aconteceu.

João da Silva Guimarães, filho de Pascoal da Silva Guimarães, ‘emboaba’ orgulhoso e rebelde, […] com um magote de companheiros irrompera para o norte de Minas Gerais, indo rasgar os primeiros rumos na direção do rio das Contas, do rio Pardo, das cabeceiras do Paraguaçu e das serras brancas que lhe dominam o curso tortuoso (CALMON, 1951:21 e 22) in PEREIRA, 2007.

http://snh2007.anpuh.org/resources/content/anais/Isnara%20Pereira%20Ivo.pdf.

 

Sendo ou não sendo, o que eu, enquanto ser humano vivente, nesse período da história posso fazer? Depois de toda a injustiça que até hoje continua, que os índios continuam sendo perseguidos para serem catequizados para serem conquistados e expulsos de suas terras, além do racismo contra os negros que continua forte, pelos acontecimentos passados a gente não pode fazer nada , só nos informar e entender o que aconteceu. Mas nessa desordem e retrocesso que a gente está vivendo precisamos tomar partido, precisamos nos juntar pra mudar a realidade, tentar transformar essas injustiças que vem desde as bandeiras, agora é a hora de agir, se revoltar, construir novos valores. #foratemer

E como diz o poema da Elisa Lucinda: “A gente não pode mudar o começo, mas se a gente quiser pode mudar o final.”

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Publicado em A ARTE AINDA PULSA

“Se Deus te deu o dom, se cresce não mano… É que cê ta devendo por três”

Em tempos distópicos, persistir nos sonhos utópicos é uma forma de resistência, firmar a vida na resiliência é ter fé de que podemos ir além. Acreditar, seguir, mas quantas vezes perseguir e ter que lutar contra a injustiça que reina e ainda ser negado o direito à arte, a cultura, a história ou a nossa própria dignidade.  E não é violência sermos privados de nossa identidade?

Porque dia após dia, a alma e sua intrínseca expressão são sufocadas em ônibus lotados?

Almas que em calçadas frias tentam sobreviver de migalhas?

Como pensar em Stanislavsky se a fome lancinante corrói o juízo?

Como pensar em uma obra de Picasso se não se tem nem casa?

Como se pensar em cinema, se a onda do crack já é mais que ficção científica?

Mas como que além do básico ainda se nega a expressão da alma?

Como que além da falta de hospitais, de escolas decentes ainda falta a chance de perceber que a vida não é só trabalhar, se humilhar ou padecer da falta de compaixão?

“A cidade sem cor
Solidão, solidão
Nas esquinas da dor na cidade sem cor
Se você vacilar vão te atropelar”

Cidade sem cor – Inquérito

Porque ainda negam a nossa expressão? A voz que grita no peito por mais vida!

Sem planos, abri as portas e saí, absorvendo o que os caminhos diziam, em meio a edifícios fechados, mendigos que se agasalhavam do vento frio da rua, grandes filas na espera de um ônibus, viciados a pedir moedas.

Entro numa rua de casas históricas, o som que vem de dentro de um dos edifícios me chama atenção. Ele com todas as portas abertas convida os passantes a entrarem.  Adentro, e todo o edifício é um grande salão de dança e nele as pessoas dançam, seus corpos fluem no salão ao som de tango como se tudo ao redor não existisse. Todos que dançam parecem tão concentrados ali em seus passos, seus corpos, no momento presente.

E eu no canto, vejo na rua um carroceiro buscando do lixo o que viver, passa apressado. Olha rápido, curioso, continua seu caminho. Ele não tem tempo e nem lhe foi dito que dançar ali também é um direito seu.

“Não tem como ser diferente
Porque arte é arte, dor é alegria presente
O homem é um animal que está sempre em conflito com a mente
E pra quem é muito louco até o ardor do sol surpreende
Pra falar do que sinto cantei
Cantei me expus e até me emocionei
Um microfone, um palco num momento de lucidez
Se deus te deu o dom se cresce não mano…(hahaha)
É que cê tá devendo por três. ”

 Até me emocionei – Criolo

Vocabulário:

Distopia: Ideia ou descrição de um país ou de uma sociedade imaginários em que tudo está organizado de uma forma opressiva, assustadora ou totalitária, por oposição à utopia.

 Intrínseca: 1. Que se encontra na essência ou na natureza de algo ou alguém. = ÍNTIMO 2. Que é inerente ou essencial a alguém ou algo. 3. Que é real e não depende de uma convenção (falando do valor de uma coisa sem atender à sua estimação ou circunstâncias).

Lancinante: 1. Que se faz sentir por picadas ou golpes internos. = PUNGENTE.  2.Figurado] Que excrucia ou causa muita aflição (ex.: dor lancinante; tristeza lancinante). = AFLITIVO, CRUCIANTE, EXCRUCIANTE.
Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/