Publicado em CINEMA INDIANO

Kyon na hum tum…

A minha ligação com o cinema indiano, vai além da estética ou da linguagem, é uma ligação bastante emocional.

Os filmes indianos salvaram meu gosto pelo cinema (sério! !!) e muitas vezes me ajudaram quando eu precisei de um apoio psicológico, uma forma de refletir a minha própria vida, além de me ajudar a olhar o Brasil com outra perspectiva, as vivências e enredos dos filmes da Índia são próximas a nossa vida de país de terceiro mundo. Pode parecer exagero de uma fanática por cinema indiano, mas eu no fundo do meu poço, já tinha quase um ano que não via nenhum filme, NENHUM, não escrevia mais nada, não dormia direito, não comia, tudo que fosse de expressão artística eu suprimi em mim, era como se eu não merecesse, era uma punição por eu me sentir mal e triste, então me culpava e me proibia de fazer o que gostava.

Num dia tumultuado, minha irmã me pega pela mão e insiste para que eu assista um filme indiano com ela …e claro que eu torci o nariz… filme indiano!? deve ser terrível, ruim e mal feito. Imaginei:

GOLIMAAAAAAR

//giphy.com/embed/nUsmKbciol8bu

via GIPHY

Naquela altura eu estava fraca demais para questionar, eu só queria fugir daquela dor.

Fui apresentada ao Barfi! (o nome dele é Murphy, mas ele é surdo e acaba falando Barfi, que é um tipo de doce indiano delicioso!) Foi como um dia ensolarado na minha tempestade, o filme se inspirou (plagio no cinema indiano fica pra outra conversa) no cinema mudo e está cheio de referência, além da trilha sonora linda e alegre (Yann Tiersen?). O filme conta a história de um triangulo amoroso, nada de muito extraordinário, mas a leveza do filme era tudo o que eu precisava.  Jhimil é autista e Barfi é surdo, os dois desenvolvem um amor sem exigências, ou expectativas, focado  no cuidado e na felicidade mútua  é importante, sem egoísmo, em pequenos gestos e sendo quem são, sem máscaras e sem ilusões. Espia como que alguém fica triste, com esse amor todo?

Kyon na hum tum
Porque não? você e eu
Chale zindagi ke nashe mein hi dhut sarphire
Intoxicados pela vida, vagando descontrolados
Chal bhatak le na baawre
Venha vamos sair por aí feito loucos!

http://www.bollynook.com/en/lyrics/7264/kyon/?ttc=444pcrcrc

Contrastando com a história anterior, a ligação de Barfi e Shruti é mais física e as pressões sociais fazem Shruti ser presa as normas da sociedade, sem se deixar levar pelas emoções e sem confrontar as expectativas da família em torno dela o que atrapalha o seu relacionamento com o Barfi. Agora olha essa batida meio bossa nova:

Dil pe mera kaabu nahin
 Eu não controlo mais meu coração
Fitrat kabhi iski aisi thi nahin
 Ele nunca foi assim
Tu hi bata iss dil ka main ab kya karoon
Você, me diga, o que eu faço agora com esse coração?

http://www.bollynook.com/sr/lyrics/7263/main-kya-karoon/?ttc=9yyvvty9rc

A partir daí eu fiquei obcecada, claro que de certa forma foi como uma droga, eu usava o cinema indiano, as músicas e as milhares de pesquisa por minuto como forma de fuga. E eu me apeguei a indústria mais escapista do mundo. O indiano por natureza não gosta de encarar a verdade, na realidade, filmes mais realistas não atingem grandes públicos, por isso o apelo em carros voadores, dancinhas, e historias de casamento por amor.

Foram três anos nesse mundo louco de cinema indiano. Com o tempo fui ficando seletiva, crítica, reduzi o vício, mas meu facebook é cheio das noticias de lá, das últimas músicas. E sempre vejo um filme novo. Vou tentar escrever sobre os filmes da índia daqui pra frente, se quiserem dicas de filmes, tenho listas temáticas que se adequam a cada gosto.

Quem quiser assistir Barfi! online segue link:

https://drive.google.com/file/d/1Xn2Na86NbKwPS9zaJ9rPpfV0uOx6H117Eg/view

Só um aviso, vicia, quando você vê já está dançando.

//giphy.com/embed/xTcnT1NyU61Fpk75WU

via GIPHY

Anúncios
Publicado em A ARTE AINDA PULSA

“Se Deus te deu o dom, se cresce não mano… É que cê ta devendo por três”

Em tempos distópicos, persistir nos sonhos utópicos é uma forma de resistência, firmar a vida na resiliência é ter fé de que podemos ir além. Acreditar, seguir, mas quantas vezes perseguir e ter que lutar contra a injustiça que reina e ainda ser negado o direito à arte, a cultura, a história ou a nossa própria dignidade.  E não é violência sermos privados de nossa identidade?

Porque dia após dia, a alma e sua intrínseca expressão são sufocadas em ônibus lotados?

Almas que em calçadas frias tentam sobreviver de migalhas?

Como pensar em Stanislavsky se a fome lancinante corrói o juízo?

Como pensar em uma obra de Picasso se não se tem nem casa?

Como se pensar em cinema, se a onda do crack já é mais que ficção científica?

Mas como que além do básico ainda se nega a expressão da alma?

Como que além da falta de hospitais, de escolas decentes ainda falta a chance de perceber que a vida não é só trabalhar, se humilhar ou padecer da falta de compaixão?

“A cidade sem cor
Solidão, solidão
Nas esquinas da dor na cidade sem cor
Se você vacilar vão te atropelar”

Cidade sem cor – Inquérito

Porque ainda negam a nossa expressão? A voz que grita no peito por mais vida!

Sem planos, abri as portas e saí, absorvendo o que os caminhos diziam, em meio a edifícios fechados, mendigos que se agasalhavam do vento frio da rua, grandes filas na espera de um ônibus, viciados a pedir moedas.

Entro numa rua de casas históricas, o som que vem de dentro de um dos edifícios me chama atenção. Ele com todas as portas abertas convida os passantes a entrarem.  Adentro, e todo o edifício é um grande salão de dança e nele as pessoas dançam, seus corpos fluem no salão ao som de tango como se tudo ao redor não existisse. Todos que dançam parecem tão concentrados ali em seus passos, seus corpos, no momento presente.

E eu no canto, vejo na rua um carroceiro buscando do lixo o que viver, passa apressado. Olha rápido, curioso, continua seu caminho. Ele não tem tempo e nem lhe foi dito que dançar ali também é um direito seu.

“Não tem como ser diferente
Porque arte é arte, dor é alegria presente
O homem é um animal que está sempre em conflito com a mente
E pra quem é muito louco até o ardor do sol surpreende
Pra falar do que sinto cantei
Cantei me expus e até me emocionei
Um microfone, um palco num momento de lucidez
Se deus te deu o dom se cresce não mano…(hahaha)
É que cê tá devendo por três. ”

 Até me emocionei – Criolo

Vocabulário:

Distopia: Ideia ou descrição de um país ou de uma sociedade imaginários em que tudo está organizado de uma forma opressiva, assustadora ou totalitária, por oposição à utopia.

 Intrínseca: 1. Que se encontra na essência ou na natureza de algo ou alguém. = ÍNTIMO 2. Que é inerente ou essencial a alguém ou algo. 3. Que é real e não depende de uma convenção (falando do valor de uma coisa sem atender à sua estimação ou circunstâncias).

Lancinante: 1. Que se faz sentir por picadas ou golpes internos. = PUNGENTE.  2.Figurado] Que excrucia ou causa muita aflição (ex.: dor lancinante; tristeza lancinante). = AFLITIVO, CRUCIANTE, EXCRUCIANTE.
Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/

Publicado em ARQUITETURA

Arquitetura serve de quê? Para quem?

Arquitetura: s.f. (lat architectura) 1. Arte de projetar e construir prédios, edifícios ou outras estruturas; arquitetônica. 2. Constituição do edifício. 3. Contextura de um todo. 4. Intenção, projeto.

Leia o texto com esse som do China, sobre o movimento Ocupe Esterlita.

 

Quando entramos no curso de Arquitetura nos vendem um mundo de sonhos, de que você é um tipo de Deus que não projeta ambientes, realiza sonhos, que seremos artistas inquestionáveis, com soluções mágicas. Mas que tipo de sonhos são esses? De onde surgem o sonho de ter um prédio com uma parede toda de vidro virada para o poente numa cidade que faz um calor infernal? De onde surgem legislações, que não servem para o coletivo e quem pode arruma um jeito de não seguir? De onde vem o sonho de morar isolado com um muro de 5 m ao redor da sua casa? Ou o sonho de morar em apartamentos em que a suite master tem 9 m²? Ou de onde vem o sonho de morar numa casa de conjuntos populares iguais sem a mínima infraestrutura urbana quase fora da cidade e sem transporte?  Para que serve a arquitetura? Para quem? Para ter um projeto no meio de um esquema de corrupção? De se receber dinheiro para indicar um mobiliário que o cliente não precisa? De usar um material que destrói a natureza? Usar a sustentabilidade como marketing e na prática usar os mesmos processos construtivos insustentáveis? Ou conseguir aprovar uma obra toda ilegal por causa de um “amigo” dentro do órgão? No fim, onde está o sonho para se realizar?

“Bem mais do planejar uma construção ou dividir espaços para sua melhor ocupação, a Arquitetura fascina, intriga e muitas vezes, revolta as pessoas envolvidas pelas paredes. Isso porque ela não é apenas uma habilidade prática para solucionar espaços habitáveis, mas encarna valores. A Arquitetura desenha a realidade urbana que acomoda os seres humanos no presente. É o pensamento transformado em pedra, mas também a criação do pensamento. Do seu, inclusive. É bom conhecê-la melhor
Carlos A.C. Lemos

A realidade é brutal, temos que seguir leis que não se preocupa com a cidade, projetos que só são feitos para a manutenção de privilégios, em que as pessoas são completamente ignoradas, em que não há espaço para ninguém, em que o que vale são valores excludentes, ambientes feitos para mostrar poder, prestigio e que de certa forma oprime quem os utiliza. A crítica em si não é a arquitetura, a sua arte ou a sua vocação construtiva, mas do papel que ela desempenha na sociedade em como as pessoas enxergam o fazer arquitetônico, pela ótica egoísta e de egos.

Desconsiderar o entorno, as árvores existentes, a topografia e a memória afetiva das pessoas,  os nossos sonhos foram esmagados pelo progresso, o lado artístico da arquitetura é subjugado e transformado em mercadoria, para estampar maquetes meramente ilustrativas.

O urbanismo, nem se fala, as pessoas praticamente nem se dão conta do quanto um bom planejamento urbano, minimizaria vários problemas, a cidade vai sendo montada a partir da especulação imobiliária, do carro, e vamos marchando assistindo atônitos a cidade nos ser tirada, nossa saúde sucumbir em cada grau a mais, em cada árvore cortada, em cada desabrigado deslocado de suas casas, em cada gota de esgoto no rio despejada.

Eu amo arquitetura, tudo o que eu gosto, tudo o que me encanta, a arquitetura está no meio de algum jeito, no teatro, no cinema, na fotografia, nos poemas, no ativismo social e ambiental. O mundo insiste para a gente se especializar, focar numa coisa só a vida toda, ser uma coisa só. Mas somos infinitos de possibilidades em todas as direções, o conhecimento é fluido e para todos, e eu particularmente nunca consigo gostar de uma coisa só a vida toda, ou ser uma coisa só.

Por agora vou fugir para as montanhas, ir para a roça, olhar nas minhas próprias profundezas, para depois construir a arquitetura que eu quero, e ajudar a construir o mundo que eu sonho ver e viver. É chegado o momento de fazer o mundo girar, de caminhar com as próprias pernas. De criar o mundo que eu acredito, de exercer a arquitetura dos meus sonhos, de ter a vida que eu quero.