Publicado em ARQUITETURA

Arquitetura serve de quê? Para quem?

Arquitetura: s.f. (lat architectura) 1. Arte de projetar e construir prédios, edifícios ou outras estruturas; arquitetônica. 2. Constituição do edifício. 3. Contextura de um todo. 4. Intenção, projeto.

Leia o texto com esse som do China, sobre o movimento Ocupe Esterlita.

 

Quando entramos no curso de Arquitetura nos vendem um mundo de sonhos, de que você é um tipo de Deus que não projeta ambientes, realiza sonhos, que seremos artistas inquestionáveis, com soluções mágicas. Mas que tipo de sonhos são esses? De onde surgem o sonho de ter um prédio com uma parede toda de vidro virada para o poente numa cidade que faz um calor infernal? De onde surgem legislações, que não servem para o coletivo e quem pode arruma um jeito de não seguir? De onde vem o sonho de morar isolado com um muro de 5 m ao redor da sua casa? Ou o sonho de morar em apartamentos em que a suite master tem 9 m²? Ou de onde vem o sonho de morar numa casa de conjuntos populares iguais sem a mínima infraestrutura urbana quase fora da cidade e sem transporte?  Para que serve a arquitetura? Para quem? Para ter um projeto no meio de um esquema de corrupção? De se receber dinheiro para indicar um mobiliário que o cliente não precisa? De usar um material que destrói a natureza? Usar a sustentabilidade como marketing e na prática usar os mesmos processos construtivos insustentáveis? Ou conseguir aprovar uma obra toda ilegal por causa de um “amigo” dentro do órgão? No fim, onde está o sonho para se realizar?

“Bem mais do planejar uma construção ou dividir espaços para sua melhor ocupação, a Arquitetura fascina, intriga e muitas vezes, revolta as pessoas envolvidas pelas paredes. Isso porque ela não é apenas uma habilidade prática para solucionar espaços habitáveis, mas encarna valores. A Arquitetura desenha a realidade urbana que acomoda os seres humanos no presente. É o pensamento transformado em pedra, mas também a criação do pensamento. Do seu, inclusive. É bom conhecê-la melhor
Carlos A.C. Lemos

A realidade é brutal, temos que seguir leis que não se preocupa com a cidade, projetos que só são feitos para a manutenção de privilégios, em que as pessoas são completamente ignoradas, em que não há espaço para ninguém, em que o que vale são valores excludentes, ambientes feitos para mostrar poder, prestigio e que de certa forma oprime quem os utiliza. A crítica em si não é a arquitetura, a sua arte ou a sua vocação construtiva, mas do papel que ela desempenha na sociedade em como as pessoas enxergam o fazer arquitetônico, pela ótica egoísta e de egos.

Desconsiderar o entorno, as árvores existentes, a topografia e a memória afetiva das pessoas,  os nossos sonhos foram esmagados pelo progresso, o lado artístico da arquitetura é subjugado e transformado em mercadoria, para estampar maquetes meramente ilustrativas.

O urbanismo, nem se fala, as pessoas praticamente nem se dão conta do quanto um bom planejamento urbano, minimizaria vários problemas, a cidade vai sendo montada a partir da especulação imobiliária, do carro, e vamos marchando assistindo atônitos a cidade nos ser tirada, nossa saúde sucumbir em cada grau a mais, em cada árvore cortada, em cada desabrigado deslocado de suas casas, em cada gota de esgoto no rio despejada.

Eu amo arquitetura, tudo o que eu gosto, tudo o que me encanta, a arquitetura está no meio de algum jeito, no teatro, no cinema, na fotografia, nos poemas, no ativismo social e ambiental. O mundo insiste para a gente se especializar, focar numa coisa só a vida toda, ser uma coisa só. Mas somos infinitos de possibilidades em todas as direções, o conhecimento é fluido e para todos, e eu particularmente nunca consigo gostar de uma coisa só a vida toda, ou ser uma coisa só.

Por agora vou fugir para as montanhas, ir para a roça, olhar nas minhas próprias profundezas, para depois construir a arquitetura que eu quero, e ajudar a construir o mundo que eu sonho ver e viver. É chegado o momento de fazer o mundo girar, de caminhar com as próprias pernas. De criar o mundo que eu acredito, de exercer a arquitetura dos meus sonhos, de ter a vida que eu quero.

 

 

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