Publicado em A ARTE AINDA PULSA

“Se Deus te deu o dom, se cresce não mano… É que cê ta devendo por três”

Em tempos distópicos, persistir nos sonhos utópicos é uma forma de resistência, firmar a vida na resiliência é ter fé de que podemos ir além. Acreditar, seguir, mas quantas vezes perseguir e ter que lutar contra a injustiça que reina e ainda ser negado o direito à arte, a cultura, a história ou a nossa própria dignidade.  E não é violência sermos privados de nossa identidade?

Porque dia após dia, a alma e sua intrínseca expressão são sufocadas em ônibus lotados?

Almas que em calçadas frias tentam sobreviver de migalhas?

Como pensar em Stanislavsky se a fome lancinante corrói o juízo?

Como pensar em uma obra de Picasso se não se tem nem casa?

Como se pensar em cinema, se a onda do crack já é mais que ficção científica?

Mas como que além do básico ainda se nega a expressão da alma?

Como que além da falta de hospitais, de escolas decentes ainda falta a chance de perceber que a vida não é só trabalhar, se humilhar ou padecer da falta de compaixão?

“A cidade sem cor
Solidão, solidão
Nas esquinas da dor na cidade sem cor
Se você vacilar vão te atropelar”

Cidade sem cor – Inquérito

Porque ainda negam a nossa expressão? A voz que grita no peito por mais vida!

Sem planos, abri as portas e saí, absorvendo o que os caminhos diziam, em meio a edifícios fechados, mendigos que se agasalhavam do vento frio da rua, grandes filas na espera de um ônibus, viciados a pedir moedas.

Entro numa rua de casas históricas, o som que vem de dentro de um dos edifícios me chama atenção. Ele com todas as portas abertas convida os passantes a entrarem.  Adentro, e todo o edifício é um grande salão de dança e nele as pessoas dançam, seus corpos fluem no salão ao som de tango como se tudo ao redor não existisse. Todos que dançam parecem tão concentrados ali em seus passos, seus corpos, no momento presente.

E eu no canto, vejo na rua um carroceiro buscando do lixo o que viver, passa apressado. Olha rápido, curioso, continua seu caminho. Ele não tem tempo e nem lhe foi dito que dançar ali também é um direito seu.

“Não tem como ser diferente
Porque arte é arte, dor é alegria presente
O homem é um animal que está sempre em conflito com a mente
E pra quem é muito louco até o ardor do sol surpreende
Pra falar do que sinto cantei
Cantei me expus e até me emocionei
Um microfone, um palco num momento de lucidez
Se deus te deu o dom se cresce não mano…(hahaha)
É que cê tá devendo por três. ”

 Até me emocionei – Criolo

Vocabulário:

Distopia: Ideia ou descrição de um país ou de uma sociedade imaginários em que tudo está organizado de uma forma opressiva, assustadora ou totalitária, por oposição à utopia.

 Intrínseca: 1. Que se encontra na essência ou na natureza de algo ou alguém. = ÍNTIMO 2. Que é inerente ou essencial a alguém ou algo. 3. Que é real e não depende de uma convenção (falando do valor de uma coisa sem atender à sua estimação ou circunstâncias).

Lancinante: 1. Que se faz sentir por picadas ou golpes internos. = PUNGENTE.  2.Figurado] Que excrucia ou causa muita aflição (ex.: dor lancinante; tristeza lancinante). = AFLITIVO, CRUCIANTE, EXCRUCIANTE.
Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/

Publicado em COISAS DO MUNDO

Este é o meu corpo… isto é o meu sangue…

Sangue de mais uma…30….estupro coletivo…Castelo….Bom jesus….Rio de Janeiro…a cada 11 minutos um estupro no Brasil…Até escrever dói… Pensar sobre isso me afeta, sinto como se fosse em mim a dor e dói, dói, dói uma dor profunda, não poderia ter sido eu, foi em mim também. Foi um duro golpe. Mais um nesses tempos estranhos. É também pela menina, que é dada como puta, que se sexualiza antes do tempo, que não tem tempo de escolher, não tem tempo, tempo, tempo que não volta, é por elas que quem pode tem a obrigação de fazer alguma coisa. Mais uma…mais outra…e outra que morre, que sofre, que apanha, mais uma sentenciada por nascer mulher. Somos estupradas, toda hora, todo dia, todo mísero segundo uma mulher é violada, abusada, estuprada e culpada por ser vítima, exposta, julgada, humilhada.

Mas o que fazer? Como fazer? Não estamos livres…Privilégio nenhum nos salva…conhecimento nenhum nos livra do sofrimento…do tormento de martelar que poderá ser a próxima da vez….próxima esquina…próxima rua…próxima semana.

Que sociedade estamos construindo com esse mar de intolerância e retrocesso? Que vida coletiva queremos? Quando vamos lutar? Quando for eu? Quando for você? Quantas mais tem que morrer? Quantas vidas se perderem para que façamos alguma coisa concreta!?

Este corpo….este sangue…., também são meus, também são teus e essa vida que se esvai em dor também é minha. E nessa sina lutar para sobreviver. Lutar para não morrer. Lutar e viver.