Publicado em DIÁRIOS DE VIDA

Minha Inércia no movimento constante

Inércia - s.f. 1.Fís. resistência que a matéria oferece à aceleração. 
2.quím. propriedade que possui uma substância de não reagir em contato com outra.

Do último texto aqui escrito até agora foram quase 3 anos. Entrei num redemoinho confuso e escuro de uma tempestade que hoje, são apenas lembranças de um dolorido processo de autoconhecimento. A tempestade começou se esvair aos poucos durante o tratamento da minha crise de ansiedade, em que fui obrigada a lidar com meus fantasmas, entre ansiolíticos, diários de sono, infindáveis desabafos em cartas para um eu despedaçado, além de seções na psicóloga acompanhada das pernas que não paravam de sacudir, fui obrigada a desacelerar, a reconsiderar minhas crenças deturpadas, a perceber quão tóxica eu estava sendo pra minha saúde, quão isolada do mundo eu estava me tornando, quão arisca eu estava, quanto o medo tinha me transformado em uma fantasmagórica figura eremita.

Houve um tempo de obsessões que eu sentia a necessidade de controlar tudo, de ter tudo sob a minha supervisão de gostar das coisas com tanto fervor como se fosse a última coisa que eu teria naquela hora, de punhos cerrados, presa em apegos infindáveis, perdida em certezas indeléveis, trancada na ilusão de ser o que o mundo diz ser legal. Ansiosa, obsessiva, compulsiva, vagava como um ser errante calada, nas minhas próprias celas, pairava afogada em amores platônicos, em desejos sufocantes, cega e sem amor próprio, ansiando pela aprovação alheia, acelerada, urgente.

Tinha pavor de ser julgada por aquilo que era e pelo que não era, pela minha loucura intrínseca, pelos desejos instintivos, pela minha face nua sem fantasias, pela aparência efêmera que carregava no momento. No fim, depois de reclusa dentro da minha loucura, me vi, perdoei, me enxerguei, sem véus, sem camadas, estou nesse mundo para dar cara a tapa, mas não foi uma resolução de um dia para o outro, foram três anos de um processo dolorido, pra todos a minha volta, para minha vida acadêmica, para a minha saúde, para minha sanidade, mas que no fim realmente me libertou. Sinto –me LIVRE 

Dos punhos cerrados, lentamente estendi minha mão para a vida, para o acaso, outras possibilidades, para o amor genuíno, para novas realidades, hoje me sinto viva, tranquila, sem sobressaltos, na época acreditava que nunca teria paz, que sempre seria um sufoco atrás do outro, que a vida TINHA que ser assim, TINHA que ser de acordo com minhas ilusões, minha expectativas. Ah! e como eu estava errada! Como me guiei por falácias distorcidas! Como é bom viver serenamente, em paz consigo, com o acaso, com os erros, com os outros, com o mundo.

A vida não têm que ser nada do que eu espero, ela simplesmente É, e esse eu que hoje sou, não é permanente para ter que ser, e também não é constante para nunca ser. 

E respondendo ao antigo “eu” do texto “Primeira Lei de Newton” de dezembro de 2012:

Chegou esse dia! A inércia é resistente a aceleração, agora é paz, é serenidade, você está inerte no movimente constante e mesmo que forças externas anseiam pelo teu repouso, faça seu mundo girar há força contigo!

Publicado em FILOSOFANDO

Primeira Lei de Newton

“Lei I: Todo corpo continua em seu estado de repouso ou de movimento uniforme em uma linha reta, a menos que seja forçado a mudar aquele estado por forças aplicadas sobre ele.”

Nunca somos um eu só, nunca somos um eu coerente, sempre constante, às vezes nem somos quem gostaríamos de ser.

Vivemos em contradição, vivemos na busca por um sentido pra tudo, na busca pela razão. Queremos estar inseridos em algum canto do mundo. Queremos ser amados, respeitados ou temidos, queremos de alguma forma estar na lembrança das pessoas, buscamos ser reconhecidos, celebrados, mesmo que seja apenas de forma virtual nas redes sociais. Ansiamos para que nos curtam, comentem nossas vidas, compartilhem de nossos gostos, que nos insiram em seus círculos, que sigam nossas ideias.

Mas somos realmente quem queremos ser? Deixamos que vejam quem realmente somos? Ou nos deixamos levar pelas expectativas alheias a nosso respeito? A fazer o que esperam que faremos? Ou fazer o que os outros acreditam que seja o melhor? Os seus sonhos são realmente seus?

Ninguém faz nada que não queira, não adianta dizer que não se tem escolha, sempre poderemos optar. Mas vivemos paralisados dizendo sim quando deveríamos dizer não, com receio do que vão pensar, do que vão dizer. Para não magoar nos magoamos, para não errar não fazemos, para não parecer fraco demais não choramos. Vamos deixando que a inércia tome conta dos nossos dias, e continuamos sentados reclamando da vida, questionando a sorte, exigindo mais movimento, mas não nos movemos, continuamos ali sentados, petrificados no mesmo canto, contando as mesmas histórias. Vemos a vida passar por entre os dedos, os dias correrem apressados nas folhas do calendário, vemos o nosso corpo clamar cansado por mais feriado.

Haverá sempre o dia em que você se cansa, e cansa de ser o você que todos esperam que seja, e chega o dia em que se faz tudo o que se deseja, sem ter que se preocupar, com o que vão pensar ou dizer. Criam tanta expectativa no nosso sucesso, ou no nosso comportamento, que não nos permitem mudar, é uma pressão sem palavras, silenciosa e amarga que nos prendem em vontades alheias e em expectativas sufocantes. Ás vezes dá vontade de fugir e fazer alguma loucura impensada, sair de repente no desconhecido, a esmo. Mas continuo aqui, nessa acomodação temporária, sentada no próprio quarto reclamando da pressão de ser um eu desconhecido e de jogar no mundo a responsabilidade de manter as amarras. Sendo ao mesmo tempo cárcere e carcereiro, mantendo as janelas fechadas, não se permitindo voar alto, fugindo do salto, das decisões, fugindo da vida.

Mas haverá esse dia e eu vou parar de procurar por uma Força externa que me movimente a vida e que faça meu mundo girar. Vou fazê-lo girar com minhas próprias pernas  sair do repouso e ficar inerte num movimento constante.